PCS | Plataforma para o Crescimento Sustentável

Think tank que visa contribuir para a afirmação de um modelo de desenvolvimento sustentável, num quadro de ampla participação nacional e internacional

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ARTIGO DE OPINIAO DE JORGE MOREIRA DA SILVA

Artigo de opinião no Jornal SOL, publicado a 11 de Junho 2016

 

"A OPORTUNIDADE DA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA NO CONTEXTO PÓS-TROIKA"

 

"As tensões a que temos assistido ao nível daquilo que se convencionou designar por economia da partilha - entre Uber e táxis, Airbnb e hotéis, Spotify e editoras, Linkedin e empresas de recrutamento, Tesla e automóveis convencionais, Car2Go e aluguer de automóveis, TripAdvisor e agências de viagem - incide apenas sobre a parte visível de um enorme iceberg.

Aquilo que verdadeiramente está em causa é o início de um debate sobre as implicações, na sociedade, na economia e no território, de uma nova vaga tecnológica que envolve a disrupção em diversas áreas científicas, como as tecnologias de informação e comunicação, a inteligência artificial, a impressão 3D, os veículos não tripulados, os novos materiais, a robótica, a genómica, o armazenamento de energia, a biotecnologia e as novas energias renováveis.
São cada vez mais evidentes os sinais, por um lado, de obsolescência e de falência de antigos negócios e, por outro, de nascimento e crescimento acelerado de outros negócios e empresas. Esta revolução tecnológica coloca desafios sem precedentes – tanto pela combinação de várias tecnologias como pela velocidade a que ocorre - a determinados modelos de negócio e ao próprio mercado de trabalho.
Os incumbentes estão em risco e os unicórnios multiplicam-se.
A nossa capacidade para superar os riscos e maximizar as oportunidades depende, antes de mais, de uma estratégia focada no conhecimento, empreendedorismo e na inovação. Disso são já exemplo as várias start-up de base tecnológica criadas por empreendedores portugueses, assim como a bem sucedida reconversão em sectores tradicionais.
Por outro lado, ao mesmo tempo que gera ganhos de produtividade na economia e melhora a vida de milhões de cidadãos, esta revolução tecnológica interpela-nos em matérias como a bioética, a privacidade e a segurança. Logo, não está apenas em causa perceber as implicações da revolução tecnológica na economia e nos mercados. A nossa análise tem também de incidir sobre as implicações na sociedade e nos mecanismos de regulação.
Temos de preparar Portugal para esta revolução tecnológica.
Nesta transformação mundial, queremos seguir ou queremos liderar?
Por essa razão, a Plataforma para o Crescimento Sustentável (www.crescimentosustentavel.org), que fundei, em 2011, com outros 400 membros, e que, em 2012, já tinha lançado o Relatório “Uma Visão Pós-troika”, decidiu agora publicar um relatório sobre os desafios da revolução tecnológica. Este trabalho iniciado, em 2015, ainda sob a liderança de Carlos Pimenta, envolveu, durante mais de um ano, um notável trabalho de investigação, liderado por António Grilo, professor da Universidade Nova de Lisboa.
Dessa investigação resultou a publicação do Relatório “Game Changers - Surfing the wave of technology disruption”, cuja apresentação teve lugar, há três semanas, no Teatro Circo em Braga, na presença de 500 cientistas e quadros de empresas.
O nosso Relatório procura responder a 3 questões fundamentais: De que forma as tecnologias disruptivas afetarão, em Portugal, as empresas, a sociedade, os mercados, a legislação e a regulação? Quais as competências de que necessitamos para "surfar" de forma competente e vencedora esta vaga tecnológica, gerando crescimento e emprego? Quais as reformas necessárias no sistema científico, nas empresas e no Estado?
O Relatório “Game Changers” constitui, pois, não apenas o primeiro estudo publicado em Portugal sobre os impactos e as oportunidades da nova vaga tecnológica como procura, adicionalmente, dar um contributo português para o debate internacional sobre a 4a revolução industrial. Quais são as principais recomendações deste Estudo?
Em primeiro lugar, precisamos de um pacto educativo - ambicioso, estável e previsível - para o reforço das competências científicas e tecnológicas dos mais jovens, num contexto de parceria entre academia, grandes empresas e start-ups. O sistema educativo deve contribuir, ainda, para o desenvolvimento das competências de toda a sociedade na área digital, em especial, ao nível da reconversão e atualização dos trabalhadores dos setores da indústria e dos serviços.
Em segundo lugar, precisamos de basear a nossa política industrial numa rede de ecossistemas de inovação. Mais do que adotar uma estratégia caracterizada pela lógica do “cada um por si” ou pela perspetiva ilusória de que um país da dimensão de Portugal se pode afirmar internacionalmente adotando abordagens de economia de escala (e não de economia de rede), temos de desenvolver novos clusters tecnológicos a partir de verdadeiros ecossistemas de inovação que agreguem, sob a mesma estratégia de colaboração, inovação e internacionalização, grandes empresas, start-ups, universidades, institutos politécnicos e sistema financeiro.
Em terceiro lugar, temos de fazer do empreendedorismo, da inovação e da abertura à mudança, competências transversais a todos o setores e cidadãos, e não apenas atributos das novas empresas. Em especial, porque, verdadeiramente, o que determina os vencedores do “jogo” são as pessoas e não as tecnologias.
Finalmente, é fundamental remover as barreiras regulamentares e administrativas à digitalização da economia. A administração pública deve liderar pelo exemplo, não só ao nível da utilização de tecnologias de dados abertos no relacionamento do Estado com as empresas e com os cidadãos, como é o caso da plataforma iGeo, mas também da adoção de estratégias de digitalização de todos os processos internos e dos serviços prestados, tendo sempre em atenção a necessidade de acautelar o apoio aos cidadãos com menores competências na economia digital.
Em resumo, temos de, rapidamente e num contexto de abrangência e compromisso, definir as estratégias e as políticas públicas capazes de posicionar Portugal como um dos vencedores desta nova revolução industrial.
Até porque, no quadro desta revolução industrial, a centralidade dos países não depende da geografia, mas antes da ousadia, e a competitividade dos países não depende dos recursos naturais, do trabalho e capital intensivos, mas antes da criatividade, do conhecimento e da inovação. Essa circunstância não torna a competição mais simples. Mas torna-a, pelo menos, mais justa.
Esta é a nossa oportunidade. Não a podemos perder como aconteceu com as três revoluções industriais anteriores."